domingo, 25 de janeiro de 2009

Limites do crescimento: Clube de Roma - Cont cap.4

Continuo a apresentar o capítulo 4 do Relatório do Clube de Roma ou o Relatório Meadow.

Efeitos colaterais da tecnologia

Efeito colateral segundo Dr. Garret Hardin são todos aqueles efeitos não previstos ou pelos quais não se quer passar, após um efeito principal.
No texto apresentado foram vistos os efeitos colaterais das novas técnicas, porém não pode ser levado em conta os efeitos colaterais sociais uma vez que, por se tratarem de dados não estáticos (seres humanos com vontades subjetivas), suas variações são imprevisíveis.
Um exemplo de efeito social colateral é Punjabi na Índia. Houve lá a Revolução Verde (utilização de novas variedades de sementes combinada com o uso de fertilizantes e pesticidas) que, como efeito principal, proporcionou aumento na produção, nos salários e empregos. Porém, Punjabi é uma terra de latifúndios e houve o agravamento da distribuição de terras no país. Pequenas fazendas não suportaram os aumentos dos salários e não tinham como investir nas novas sementes e alavancar a produção; ficaram ultrapassados e foram extintos do mercado. Além disso, os grandes latifundiários se capitalizaram e substituíram a mão-de-obra agrícola por máquinas. Houve o êxodo rural e o número de pobres e desnutridos no país aumentou.

Dados estatísticos do México, onde a revolução verde começou, na década de 40, oferecem outro exemplo. De 1940 a 1960, a taxa média de crescimento da produção agrícola, no México, foi de 5% ao ano. No entanto, de 1950 a 1960, o número médio de dias de trabalho de um trabalhador rural, sem terras, caiu de 194 para 100 e sua renda real decresceu de 68 dólares para 56. Além disso, 80% do aumento da produção agrícola vieram de, apenas, 3% das fazendas.
Esses efeitos sociais colaterais e inesperados não significam que a tecnologia, na revolução verde, tenha fracassado. Indicam que os efeitos sociais colaterais devem ser antecipados e interceptados antes que novas técnicas sejam adotadas em grande escala. A tecnologia pode mudar rapidamente, mas as instituições sociais, geralmente, mudam muito mais devagar e quase nunca mudam por antecipação e sim, somente. em resposta a uma ação.

Problemas sem Soluções Técnicas.
Segundo o livro Limites do Crescimento soluções técnicas são mudanças nas ciências naturais, que não exigem ou exigem pouco de mudanças nos valores humanos ou idéias de moralidade. Um exemplo disso é a construção de heliportos nos arranha-céus mais altos, muda o congestionamento das cidades para algumas pessoas, que desfrutaram da comodidade, sem interferir no valores humanos.
Mesmo com todas as soluções técnicas pode acontecer de um dia um problema não técnico impedir o crescimento da população e do capital. Um exemplo é o racismo ou a corrida armamentista, que exige medidas socio-culturais e não técnicas.

Uma escolha de limites

A tecnologia criou tanto crescimento no passado que fez ocorrer um novo fato social, em que toda a sociedade absorveu a cultura de superar os limites em vez de aprender a viver dentro deles.
Um exemplo visível de colapso em um sistema pequeno é a caça a baleias. A cada ano, por mais que se use tecnologia, o número de baleias pescadas vem caindo e caso não se aprenda a viver dentro dos limites da vida, as baleias sumirão e levarão consigo baleeiros e a indústria baleeira.
Uma alternativa é a imposição de um número de pescados anuais que possibilite a manutenção da vida gerando um ecossistema equilibrado para os humanos e a comunidade de cetáceos. Este exemplo de limite é enfrentado todos os dias pela sociedade. Os avanços tecnológicos superam os limites naturais, mas até quando (grifo meu)?
Há discordância se o crescimento populacional e de capital pararão em breve ou não, mas o que ninguém discorda é que o crescimento populacional e de capital, neste planeta, não poderá continuar para sempre.
Podem esperar até que o preço da tecnologia se torne mais caro do que os benefícios por ela trazidos, esperar pelos efeitos colaterais ou, até mesmo, pelos problemas sem soluções técnicas, mas, indiferente do que venha acontecer, os limites impostos pelas pressões independentes das escolhas humanas será pior do que se a sociedade tivesse escolhido os próprios limites. A sociedade tem que tomar consciência que a tecnologia solucionará problemas, mas que desvia o foco do principal problema – o mundo é finito. E tomando consciência disto passará a tomar medidas efetivas para impedir o colapso.
Este texto não tem por finalidade passar a imagem que a tecnologia é má ou fútil ou desnecessária. Muitos dos avanços tecnológicos são necessários desde que combinados com controles deliberativos de crescimento.

‘‘NÃO UMA OPOSIÇÃO CEGA AO PROGRESSO, MAS UMA OPOSIÇÃO AO PROGRESSO CEGO’’ Sierra Club.

Comentário

Ao início desta investigação, o primeiro objetivo era obter uma visão mais clara dos limites do sistema mundial e das restrições à população humana e suas atividades, considerando que, hoje, mais que nunca, tende para o crescimento contínuo, supondo que o meio ambiente permitirá tal expansão. Objetivava-se também, explorar o grau desta atitude, em relação ao crescimento, necessidades fundamentais da sociedade em formação. Além desse intuito, pretendia-se identificar e estudar os elementos dominantes que influem no comportamento dos sistemas mundiais a longo prazo, como suas interações.
O projeto pretendia ser e é uma análise das tendências atuais, influências e possíveis resultados. O objetivo era advertir sobre a possível crise mundial oferecendo uma oportunidade para fazer mudanças em nossos sistemas políticos, econômicos e sociais com o fim de evitar que a crise aconteça.
O relatório alcançou seus objetivos, apresentados em Moscou e no Rio de Janeiro, em 1971. Os limites de crescimento que ele examina são, apenas, os mais distanciados limites físicos impostos pela limitação do sistema mundial. Ele oferece sugestões experimentais para o estado futuro do mundo, abrindo perspectivas para esforços intelectuais e práticos. Contudo, alguns pontos, suscitaram críticas:
1. Como os modelos podem acomodar somente um número limitado de variáveis, as interações estudadas são apenas parciais. Embora haja a possibilidade de alteração em apenas um lugar e verifica-se efeito em outras, essa experiência no mundo real, seria longa, dispendiosa, e alguns casos, impossível.
2. Sugeriu-se que não foi dada importância suficiente às possibilidades de progressos científicos e tecnológicos na solução de certos problemas. Contudo, concordou-se que esses desenvolvimentos viriam tarde demais para evitar um desastre demográfico ou ambiental.
3. Outros acharam que a possibilidade de se descobrirem estoque de matérias-primas, em áreas ainda não suficientemente exploradas, era maior que a admitida no modelo, o que adiaria a escassez, em vez de eliminá-la
4. Alguns consideraram o modelo muito “tecnocrático”, observando que ele não incluía fatores sociais críticos. Crítica prontamente aceita. O modelo atual considera o homem, apenas, em seu sistema material, contudo as conclusões do estudo sugerem a necessidade de uma mudança fundamental nos valores da sociedade.
Muitos críticos compartilharam a crença de que o significado essencial do projeto se encontra nos seus conceitos globais porque é pelo conhecimento dos conjuntos que se adquire conhecimento dos componentes e não vice-versa. As conclusões do estudo, embora válidas para o nosso planeta como um todo, não se aplicam, a nenhum país ou região em particular, embora os acontecimentos mundiais ocorram esporadicamente, em pontos de tensão e não generalizada ou simultaneamente, em todo o planeta.
Finalmente, pode-se considerar o relatório particularmente valioso, pois, chama a atenção para a natureza exponencial do crescimento humano, dentro de um sistema fechado. O projeto MIT dá uma explicação ponderada e sistemática para tendências, das quais o povo tem apenas um conhecimento indistinto.
As conclusões pessimistas do relatório têm sido matéria de discussão, as quais são acolhidas com prazer, visto a importância de se verificar as verdadeiras dimensões da crise e os níveis de gravidade que ela pode alcançar nas próximas décadas.
Pelas respostas do rascunho do relatório, se acredita que mais pessoas se perguntarão, se o ímpeto de crescimento atual não poderia ultrapassar a capacidade de manutenção deste planeta. Então, como os patrocinadores deste projeto o avaliam? Como uma mensagem de significação mais profunda que uma comparação de dimensões, relevante em todos os aspectos do predicamento atual da humanidade, contudo concordamos nos seguintes pontos:

1. A compreensão das restrições quantitativas do meio ambiente mundial e das conseqüências trágicas de uma ultrapassagem dos limites é essencial para a iniciação de novas maneiras de pensar.

2. Mais convencidos de que a pressão demográfica no mundo já atingiu um nível tão alto, e está distribuída de um modo tão desigual, que deve forçar a humanidade a procurar um estado de equilíbrio em nosso planeta.

3. Reconhece-se que o equilíbrio mundial somente poderá tornar-se uma realidade, caso o grupo dos chamados países em desenvolvimento tenha uma melhora substancial em relação às nações economicamente desenvolvidas, progresso alcançado através de uma estratégia global apenas.

4. Problema global do desenvolvimento está intimamente ligado a outros problemas globais e que a estratégia global deve atacar os grandes problemas, incluindo aqueles que dizem respeito à relação do homem com seu meio ambiente.

5. A complexa problemática consiste em elementos que não podem ser expressos em termos mensuráveis, no entanto, acredita-se que este método é indispensável para a compreensão da problemática.

6. Uma emenda rápida e radical na situação mundial, atualmente, desequilibrada e em perigosa deterioração é a tarefa fundamental com que se defronta a humanidade.

7. O esforço supremo é um desafio para a nossa geração e não pode ser transferido à próxima. Ele deve ser empreendido resolutamente e sem demora e uma reorientação significativa deve ser conseguida durante essa década.

8. Se a humanidade quiser tomar um novo rumo, serão necessárias medidas internacionais ajustadas e planejamento conjunto a longo prazo, em uma escala e de um alcance sem precedentes.

9. Um freio imposto à espiral do crescimento demográfico e econômico não deve levar a um congelamento do status quo de desenvolvimento econômico de todas as nações do mundo.

10. Qualquer tentativa deliberada para atingir um estado de equilíbrio racional e duradouro, através de medidas planejadas, e não por meio de acasos e catástrofes, deve ser fundamentada, em uma mudança básica de valores e objetivos em níveis individuais, nacionais e mundiais.

Contudo permanece a dúvida quanto à situação mundial: será tão séria a questão quanto apresentada? Queira que essas advertências seja apenas um modo de julgamento sombrio. Naturalmente, a atitude é de intensa preocupação, entretanto o relatório apresenta uma alternativa para o crescimento descontrolado e desastroso, com algumas idéias quanto às mudanças no plano de ação.

O conceito de uma sociedade em constante estado de equilíbrio e ecológico onde parece fácil de compreender, no entanto, trata-se de uma tarefa cheia de dificuldades e de complexidades amadoras. De qualquer forma, a transição, provavelmente, será penosa e fará exigências extremas à engenhosidade e à firmeza humana.

O clube de Roma encorajará na criação de um fórum mundial, onde os estadistas, os responsáveis pelos programas e os cientistas, possam discutir os perigos e as esperanças para o sistema global futuro, sem os constrangimentos das negociações formais intergovernamentais.

O ponto essencial da questão não é, somente, a sobrevivência da espécie humana; porém, ainda mais, a sua possibilidade de sobreviver, sem cair em então inútil de existência.

Penso e, agora, é a minha opinião, que devemos pensar sobre o escrito acima. Muito deste capítulo me fez re-considerar algumas questões sobre o papel do documento no próprio encontro em Estocolmo, em 1972. Ocorreram discussões anteriores, que foram realizadas no Rio de Janeiro e Moscou e que precisam ser recuperadas. Nesse contexto, quando ocorre a Conferência, o acirramento não foi o de momento, mas fruto de uma discussão, que pouco se tem noticias.
Se alguém souber alguma coisa ou tiver algum documento, entre, por favor, em contato comigo. Acho que vale a pena recuperarmos essa parte da história que pouco ou nada se comenta.

sábado, 1 de novembro de 2008

Limites do crescimento: Clube de Roma: Capítulo 04

Como muitos procuram o livro e não acham, resolvi fazer um breve resumo do mesmo. Aos poucos, vou disponibilizando.
Hoje, apresento o capítulo 04. Acho que ele é um dos mais importantes do livro.
Só quero salientar que, não há opiniões minhas. Aqui é o Relatório.

Capítulo 04 – Tecnologia e os Limites do Crescimento

Nos últimos 300 anos a humanidade conseguiu expandir os limites aparentes do crescimento econômico e populacional, o que antes eram impossíveis, graças aos avanços tecnológicos. Pessoas acreditam que estes avanços serão capazes de expandir indefinidamente os limites físicos do planeta e falam do futuro com perspectivas otimistas.
‘‘O domínio da humanidade sobre (...) as inesgotáveis fontes de energia, e o avanço rápido da tecnologia(...)’’, permite obter uma maior quantidade de produtos com um menor espaço físico utilizado e foi o que provocou as falhas nas previsões pragmatistas de Malthus.
Antes de achar que inovações tecnológicas são soluções para os problemas da sociedade, Meadows analisa, a partir do impacto global de novas tecnologias, a curto e longo prazos, todos os cinco setores engrenados no sistema população-capital.

Tecnologia no Modelo Mundial
Tecnologia é um termo muito amplo que envolve indefinidas técnicas que surgem de diferentes setores. Assim será apresentado separadamente cada técnica proposta para abordagem da ‘‘avaliação da tecnologia’’ global, a longo prazo.

Energia e recursos naturais
Os limites impostos pelos combustíveis fósseis já foram superados, pelo surgimento da energia produzida, a partir da fissão nuclear. Mas que efeito o uso crescente da energia nuclear terá sobre a disponibilidade dos recursos naturais do sistema mundial?
Autoridades no assunto afirmam que formas novas e abundantes de energia possibilitarão à humanidade utilizar matérias como minérios mais pobres, rochas comuns e reciclar detritos sólidos, que de outra forma seriam inatingíveis. Esta não é uma opinião fomentada por todos os especialistas.

1. Modelo Mundial com Reservas ‘‘Ilimitadas’’
Adotando duas suposições:
1. O uso de energia nuclear duplicará as reservas de recursos naturais
2. A energia nuclear possibilita a realização de programas extensivos de reciclagem e substituição.

Mesmo com fontes ‘‘ilimitadas’’ de recursos naturais, o crescimento será interrompido pelo aumento da poluição; pois já será enorme a quantidade de detrito inutilizável produzidos para mineração e preparos de rochas. Além do mais medidas de seguranças deverão ser tomadas para evitar a perda de soluções e conseqüente contaminação do lençol aquático subterrâneo e águas superficiais. Medidas incertas por se tratar de energia nuclear.
Se tudo isso der certo, realmente, não faltarão recursos naturais. Contudo, a eminente poluição fará com que a produção de alimentos caia, o que ocasionará a diminuição, com o passar do tempo, da demografia mundial. Com menos pessoas, a produção industrial tende a cair, também. Isso demonstra que a oferta de recursos ilimitados não é a chave para a manutenção do crescimento no sistema mundial. Esta disponibilidade deverá ser acompanhada pelo controle da poluição.

Controle da Poluição
É sabido que a mudança da fonte de energia (fóssil para nuclear) causará redução, por exemplo de gases nocivos, como óxido de Carbono (CO2) e óxido de enxofre (SO2) assim como a reciclagem de certos produtos. Reduzirá também a poluição produzida por detritos sólidos e alguns metais tóxicos.
Entretanto, a mudança para energia nuclear pouco afetará a poluição por sub-produtos da indústria manufatureira, poluição térmica e a decorrentes das atividades agrícolas.
Com a criação de novas energias, dispositivos de controle da poluição deverão ser criados. Porém, o controle rigoroso - o que não significa controle total – por restrições tecnológicas – economicamente tornam o investimento inviável, pois, eles tem o custo de produção industrial.

2. Modelo Mundial com reservas ‘ilimitadas’ e controle da poluição.
Considerando que os meios tecnológicos fazem com que ocorra a diminuição da poluição para ¼ do nível atual - não importando que seus valores máximos vão muito além dos atuais - pode-se concluir que o esgotamento de recursos naturais e a poluição nunca se tornarão um problema. Ainda assim, topa-se com um limite, a escassez de alimentos, pois novas terras serão exploradas e as antigas terão sua capacidade de produção aumentada. No entanto, parte da terra cultivável será destinada para fins urbano-industriais e uma parte será destruída pela erosão.

3. Modelo Mundial com reservas ‘ilimitadas’; controle da poluição e aumento da produção agrícola.
Com tudo andando perfeitamente, ou seja, com reservas naturais ilimitadas, poluição controlada e aumento na produção agrícola, ainda assim o mundo entraria em caos, pois aconteceria o aumento da população global. À medida que a população cresce, a taxa de alimentos per capita diminui. Com a escassez de alimentos eminente, a produção industrial será desviada para produção agrícola com conseqüente falta de investimentos, a produção industrial começará a cair. Quando a quantidade de alimentos per capita atingir o nível de subsistência, a taxa de mortalidade crescerá pondo um limite ao crescimento demográfico.

Aumento da produção de alimentos e controle da natalidade
O problema anterior pode ser visto por duas maneiras:
1) Falta de alimento
2) Excesso de população
A saída tecnológica para o primeiro, seria a revolução verde (desenvolvimento de novos cereais, com alto rendimento) e para o segundo problema é proporcionar melhores meios para controle da natalidade.

4. O modelo mundial com reservas ‘ilimitadas’, controles de poluição e um “perfeito” controle de natalidade.
O perfeito controle da taxa de natalidade refere-se ao fato de os pais terem somente os filhos realmente desejados. Isto implica que a população mundial continuará crescendo, o que adiará duas décadas ou um pouco mais os limites suportados pelo mundo.
O Sistema Modelo, que foi adotado, faz uso de energia nuclear, recicla recursos naturais, explora reservas naturais de fontes remotas, retém todos os poluentes possíveis, aumenta o rendimento da terra de maneira inconcebível e produz, somente, os filhos realmente desejados pelos pais. No entanto, ainda assim, só se prolongou o período de crescimento industrial e da população, mas não removeu os limites definitivos desse crescimento.
De acordo com a lei de Newton, para toda ação gera-se uma reação. Isto prova que, caso se considere, cada mudança no sistema como uma ação, o colapso é uma reação. Quanto mais rápida for uma reação, por exemplo o crescimento exponencial da população, mais rápido também será o colapso da falta de alimentos no mundo. E mais, quanto mais tempo demorar para se produzir uma nova tecnologia para desenvolver sementes de alimentos mais produtivas, menor será a taxa de alimentos per capita e mais tempo durará a fertilidade do solo. Tudo está interligado e o sistema condenado ao colapso.

Um outro exemplo de ação e reação e que também demonstra a demora da reação é ‘‘(...) a poluição, gerada em quantidades exponencialmente crescentes, pode ir além do ponto perigoso, porque este ponto só é percebido anos depois de a poluição maléfica ter sido liberada(...)’’ (Meadows,1972).

domingo, 21 de setembro de 2008

O CLUBE DE ROMA

Devido aos vários e-mails que recebi, tomei a decisão de aprofundar o Relatório do Clube de Roma. Grande parte do que vou desenvolver está contido no próprio Relatório que tem o nome de “Limites do Crescimento: Um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade”, organizado por Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jφrgen Randers e William W. Behrens III e publicado em 1972.

Vocês, como eu, ficarão abismados como, com as devidas proporções, o relatório ainda se mostra atual.

O Clube de Roma nasceu, em abril de 1968, em um encontro de trinta pessoas de dez países. Esse grupo era formado por cientistas, educadores, economistas, humanistas, industriais e funcionários públicos de nível nacional e internacional. Eles se reuniram na Academia dei Lincei, em Roma – Itália instados pelo Dr. Aurélio Peccei, empresário e economista, para discutir os dilemas atuais e futuros do homem.
A formação dos membros é variada, portanto. Citam-se o Dr. Aurélio Peccei, que é associado à Fiat e à Olivetti e administra uma firma consultora para o Desenvolvimento Econômica e de Engenharia, a Italconsult.; Hugo Thiemann, chefe do Battelle Institute em Genebra; Saburo Okita, chefe do Japan Economic Research e mais 15 membros do MIT (dentre eles, os doutores Dennis L Meadows, como diretor; Peter Milling, com estudos do capital; Roger F. Naill e William W. Behrens III sobre reservas; Farhard Hakimzadeh, Donella H. Meadows e Nirmala S. Murthy sobre população; Jay M. Anderson, Alison A. Anderson e Jorgen Randers sobre poluição; dentre outros)

Os objetivos do Clube de Roma, hoje uma ONG e na época uma organização informal, era examinar o complexo de problemas, que afligem os povos de todas as nações, como a pobreza em meio à abundância; perda de confiança nas instituições; expansão urbana descontrolada; insegurança de emprego; alienação e outros transtornos econômicos e monetários. Estes elementos, aparentemente, divergentes da “problemática mundial” têm três características em comum: ocorrem até certo ponto em todas as sociedades; contém elementos técnicos, econômicos e políticos; e, o que é mais importante, atuam uns sobre os outros (Meadows et al, 1972, p. 11)
O dilema da humanidade é que o homem pode perceber a problemática e, no entanto, apesar de seu considerável conhecimento e habilidades, ele não compreende as origens, o significado e as correlações de seus vários componentes e, assim, é incapaz de planejar soluções eficazes. Fracasso que ocorre, em grande parte, porque continuamos a examinar elementos isolados na problemática, sem compreender que o todo é maior do que suas partes; que a mudança em um dos elementos significa mudança nos demais (idem, 1972, p.11)

Vou reproduzir Meadows elt al (1972, p. 13 a 20)

Introdução

Não desejo parecer excessivamente dramático mas, pelas informações de que disponho como Secretário-Geral, só posso concluir que os membros das Nações Unidas dispõem talvez de dez anos para controlar suas velhas querelas e organizar uma associação mundial para sustar a corrida armamentista, melhorar o ambiente humano, controlar a explosão demográfica e dar às tentativas de desenvolvimento o impulso necessário. Se tal associação mundial não for formada dentro dos próximos dez anos, então será grande o meu temor de que os problemas que mencionei já tenham assumido proporções a tal ponto estarrecedoras que estarão além da nossa capacidade de controle (U Thant, 1969).

Os problemas que U Thant menciona: corrida armamentista, deterioração do ambiente, explosão demográfica e estagnação econômica são citados freqüentemente como problemas fundamentais, a longo prazo, do homem moderno. Muitas pessoas acreditam que o curso futuro da sociedade humana, talvez mesmo a sua sobrevivência, depende da urgência e da eficácia das respostas que forem dadas a estas questões. No entanto, só uma pequena fração da população mundial sente-se ativamente responsável pela compreensão destes problemas ou pela busca de soluções.

Perspectivas Humanas

Toda pessoa no mundo enfrenta uma série de pressões e de problemas que exigem a sua atenção e sua ação. Estes problemas a afetam em diferentes níveis. Ela pode gastar a maior parte de seu tempo tentando garantir para si e a sua família o alimento de amanhã. Pode estar interessado no poder pessoal ou no poder da nação onde vive. Pode preocupar-se com uma guerra mundial no curso de sua vida ou com uma guerra, na próxima semana, com um grupo rival de sua vizinhança.
Estes níveis bem diferentes de preocupação humana podem ser representados em gráfico.

Ele apresenta duas dimensões: espaço e tempo.
...As perspectivas de tempo e espaço de uma pessoa dependem de sua cultura, de sua experiência passada e o caráter imediato dos problemas que enfrenta em cada nível. A maioria das pessoas precisa resolver com êxito os problemas numa área menor, antes de deslocar suas preocupação para uma área mais ampla. Em geral, quanto mais amplo o espaço e mais longo o tempo dedicado a um problema, tanto menor é o número de pessoas realmente envolvidas na busca de soluções.
Pode haver decepções e perigos na limitação da visão de uma pessoa a uma área demasiado estreita. Há muitos exemplos de pessoas que se empenham arduamente na tentativa de resolver algum problema de âmbito local e de alcance imediato, mas cujos esforços acabam sendo anulados pelos acontecimentos que estão ocorrendo num contexto maior. Uma guerra internacional pode destruir uma lavoura cuidadosamente tratada por um agricultor. Uma política nacional pode alterar os planos oficiais de uma região. O desenvolvimento econômico, de um país ou de uma região, pode ser frustrado pela ausência de mercado mundial para seus produtos. De fato, hoje, é motivo de preocupação crescente a possibilidade de a maioria dos objetivos pessoais e nacionais virem a serem anulados pelas tendências gerais, de longo prazo, tais como as mencionadas por U Thant.
São as implicações destas tendências tão ameaçadoras a ponto de sua solução exigir prioridade sobre os interesses locais, a curto prazo? Será verdade, conforme sugeriu U Thant, que nos restam menos de uma década para começarmos a regular tais tendências?
E se elas não forem controladas, quais serão as conseqüências?
Que métodos possui a humanidade para resolver problemas globais e quais serão os resultados e os custos do emprego de cada um deles?
Estas são as questões que estivemos investigando na primeira fase do Projeto Clube de Roma sobre os Dilemas da Humanidade.

Problemas e modelos

...um agricultor utiliza um modelo mental de sua terra, suas propriedades, possibilidades de mercado, das condições climáticas do passado para decidir o que vai plantar cada ano. Um agrimensor constrói um modelo físico – um mapa – para ajudar no planejamento de uma estrada. Um economista utiliza modelos matemáticos para entender e predizer o fluxo do comércio internacional. Aqueles a quem cabe tomar as decisões em todos os níveis empregam, inconscientemente, modelos mentais para escolher, entre diversas políticas, as que darão forma ao nosso mundo futuro. Estes modelos mentais são, por necessidade, muito simples quando comparados com a realidade de onde foram abstraídos. O cérebro humano, apesar de tão extraordinário, pode acompanhar apenas um número limitado das complicadas interações simultâneas que determinam a natureza do mundo real.
Nos também utilizamos um modelo. É um modelo normal, escrito, do mundo.
Ele constitui uma tentativa preliminar para melhorar nossos modelos mentais de problemas globais, a longo prazo, pela combinação de uma grande quantidade de informações que já existe na mente humana e nos registros escritos, com os novos instrumentos de processamento de informação que o conhecimento crescente da humanidade produziu: o método cientifico, a análise de sistemas e o computador moderno.
O modelo que construímos é, como todo modelo, imperfeito, supersimplificado e inacabado. Temos plena consciência de suas limitações, mas acreditamos que seja o modelo mais útil disponível no momento para lidar com os problemas mais distantes, no gráfico espaço-tempo. Pelo que sabemos, é o único modelo que existe, cujo alcance é verdadeiramente global no seu escopo, com um horizonte de tempo maior do que trinta anos e que inclui variáveis importantes como população, produção de alimentos e poluição não como entidades independentes, mas como elementos dinâmicos, tal e como o são no mundo real.
Como nosso modelo é formal e matemático possui também duas vantagens importantes sobre os modelos mentais. Primeiro, porque cada hipótese que formulamos está escrita, de maneira precisa, para ficar aberta a exame e critica por todos. Segundo, porque depois de verificadas, discutidas e revisadas para adaptarem a nosso melhor conhecimento atual, suas implicações para o comportamento futuro do sistema mundial podem ser investigadas, sem erro, por computador, não importando quão complicados possam vir a ser.
...apesar do estado preliminar de nosso trabalho, acreditamos que é importante publicarmos, agora, o nosso modelo e conclusões. Todo dia, em toda parte do mundo, estão sendo tomadas decisões que irão afetar as condições físicas, econômicas e sociais do sistema mundial nas décadas vindouras. Estas decisões não podem esperar por modelos perfeitos e completa compreensão. elas serão tomadas, de qualquer maneira, de acordo com algum modelo escrito ou mental. Julgamos que o modelo, aqui descrito, já se encontra suficientemente desenvolvido para ser útil aos responsáveis por decisões. Além disso, as modalidades de comportamento básico já observadas neste modelo afiguram-se tão fundamentais e generalizadas que, ao esperamos, que as nossas conclusões gerais venham a ser substancialmente alteradas, por revisões ulteriores.
O objetivo deste livro não é oferecer uma descrição cientifica completa de todos os dados e equações matemáticas incluídos no modelo mundial. Tal descrição poder ser encontrada no relatório técnico final de nosso projeto. Em Limites do Crescimento sintetizamos mais precisamente, as características principais do modelo e nossas conclusões, de maneira sucinta e não técnica. ...As implicações destas tendências aceleradoras fazem surgir questões que vão muito alem do campo de ação especifico de um documento puramente cientifico. Estas questões devem ser discutidas por uma comunidade mais ampla do que por uma formada apenas de cientistas. Nossa finalidade é abrir este debate.
As conclusões que se seguem emergiram do trabalho que empreendemos até agora. Não somos, de forma alguma, o primeiro grupo a formulá-las. Nestes últimos decênios, pessoas que olharam para o mundo, com uma perspectiva global e a longo prazo, chegaram a conclusões semelhantes. Não obstante, a grande maioria das pessoas encarregadas dos planos de ação parecer estar buscando objetivos que são incompatíveis com estes resultados.

São estas as nossas conclusões (idem, p.20):
1. Se as atuais tendências de crescimento da população mundial – industrialização, poluição, produção de alimentos e diminuição dos recursos naturais – continuarem imutáveis, os limites de crescimento neste planeta serão alcançados algum dia dentro dos próximos cem anos. O resultado mais provável é um declínio súbito e incontrolável, tanto da população quanto da capacidade industrial.

2. É possível modificar estas tendências de crescimento e formar uma condição de estabilidade ecológica e econômica que se possa manter até um futuro remoto. O estado de equilíbrio global poderá ser planejado de tal modo que as necessidades materiais básicas de cada pessoa na terra sejam satisfeitas e que cada pessoas tenha igual oportunidade de realizar seu potencial humano individual.

3. Se a população do mundo decidir empenhar-se em obter este segundo resultado, em vez de lutar pelo primeiro, quanto mais cedo ela começar a trabalhar para alcançá-lo, maiores serão suas possibilidades de êxito.

Estas conclusões são de tal alcance e levanta tantas questões para estudos ulteriores que, francamente, nos sentimos esmagados pela enormidade do trabalho que precisa ser feito.
Esperamos que este livro sirva para interessar outras pessoas em diversos campos de estudo e em muitos paises do mundo para que se ampliem os horizontes de espaço e de tempo de seus interesses; e para que elas se juntem a nós na compreensão e preparação para uma época de grande transição entre o crescimento e o equilíbrio global.

Aos poucos vou disponibilizando as análises.

sábado, 13 de setembro de 2008

Carta Empresarial para um Desenvolvimento Sustentável

Hoje vou falar da incorporação do meio ambiente na área empresarial.
Não há dúvidas que o meio empresarial se re-organizou e internalizou a variável ambiental, em particular, como diferenciador de produtos e ou como barreira técnica.

Essa história tem um certo tempo. O programa 3P (Pollution Prevention Pays) foi lançado, em 1975, pela Companhia 3M visando desenvolver uma aplicação organizada do conceito de prevenção da
poluição. Com isso, deixa-se a ênfase de controle da poluição nas fases finais de processos para enfatizar o combate à poluição em sua origem. A prevenção passa a ser entendida como uma estratégia tanto ambiental quanto competitiva e financeira.

Ainda na década de 1970, surgem os rótulos ambientais voluntários, que atestavam que alguns alimentos tinham sido cultivados sem a utilização de agrotóxicos e contribuiram para mostrar aos consumidores a relação entre as atividades produtivas e os impactos ambientais. Em 1977, a Alemanha lança um rótulo (Blauer Angel, vou falar da rotulagem logo) como diferenciador de produto.

Pode-se perceber que havia certo movimento empresarial na área ambiental.

Além disso, antes mesmo da publicação do Relatório Nosso futuro Comum, em 1987 (que disseminou o conceito de desenvolvimento sustentável), diversos acordos e encontros aconteceram.

O princípio da precaução, contido no próprio Relatório Nosso Futuro Comum, de 1987, foi acordado na Conferência Mundial da Industria sobre a Administração Ambiental, em 1984 e aceito na Reunião do G7, em 1987. O Princípio da Precaução é entendida como oportunidade de investimentos e estudos localizados visando consumo mais eficiente de energia, criação de novas técnicas e tecnologias mais lucrativas.

Em 1986, a Câmara Internacional de Comércio (ICC) já estabelecia as diretrizes ambientais para a indústria mundial.

Em 1991 foi criado o Business Council for Sustainable Development-BCSD (Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável), um órgão ligado à ONU, com sede em Genebra. Só para frisar, a criação do BCSD foi incentivada com o convite de Maurice Strong (Secretário Geral, na Eco-92) ao empresário Stephan Schmidheiny. No mesmo ano de 1991, Schmidhiny lançou, através do próprio BCDS , o livro "Mudando o Rumo: Uma perspectiva empresarial global sobre desenvolvimento e meio ambiente", traduzido para o português, em 1992. Schmidheiny foi nomeado principal assessor para assuntos de negócios e indústria de Maurice Strong, na ECO-92.

Fonte: http://www.viversustentavel.net/Livros.php
Esse livro é um marco histórico e reune uma série de workshops e conferências, com 50 lideres de grandes empresas como as Dow, Du Pont, Procter & Gamble, Shell, Kiocera e Volkswagen. Nele, S. Schmidheiny (1992) afirma que “a pedra angular do desenvolvimento sustentável é um sistema de mercados abertos e competitivos em que os preços são fixados de forma a refletir os custos dos recursos ambientais e outros”, e ainda que “os mercados abertos podem motivar as pessoas para o desenvolvimento sustentável"

O Conselho criado (BCSD), hoje com 190 corporações, tem como objetivos avançar junto com a comunidade internacional de empresários nas discussões em torno do desenvolvimento industrial sustentável, estimular o empresariado mundial a cooperar com os governantes na discussão, estabelecer metas ambientais e garantir que o desenvolvimento destas propostas ocorra dentro da economia de mercado (Schmidheiny, 1992).

Em abril de 1991, na Segunda Conferência Mundial da Indústria sobre a Administração Ambiental (WICEM II) realizada em Roterdã, na Holanda, organizada pela Câmara Internacional do Comércio (ICC) houve a apresentação e assinatura da Carta Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, proposto pela própria Câmara.

Esta carta empresarial, também conhecida como Carta de Roterdã, possui 16 princípios de gestão que expressam compromissos a serem assumidos pelas empresas, no estabelecimento de um sistema de gestão ambiental.
Vocês verão que nela está contida toda a orientação da ISO 14000.

CARTA EMPRESARIAL PARA UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

1. Prioridade empresarial
Reconhecer o gerenciamento ambiental como uma das primeiras prioridades da empresa é um fator determinante para o desenvolvimento sustentável; estabelecer políticas, programas e práticas para conduzir as operações de maneira ambientalmente sadia.

fonte:http://www.globalgarbage.org/praia/2011/11/05/reciclagem-preocupacao-antiga-problema-novo/
2. Gerenciamento integrado
Integrar plenamente essas políticas, programas e práticas em cada ramo de atividade, como elemento essencial do gerenciamento em todas as suas funções.

3. Processo de Aperfeiçoamento
Continuar a aprimorar as políticas, programas e o desempenho ambiental da empresa, levando em conta os progressos técnicos, o avanço científico, as necessidades do consumidor e as expectativas da comunidade, tendo como ponto de partida as regulamentações legais, e aplicar os mesmos critérios ambientais no nível internacional.

4. Educação do empregado
Educar, treinar e motivar os empregados para que suas atividades sejam conduzidas de maneira ambientalmente responsável.

5. Avaliação prévia
Avaliar os impactos sobre o meio ambiente antes de iniciar uma nova atividade ou projeto, e antes de desativar instalações ou retirar-se de um local.

6. Produtos e serviços
Desenvolver e oferecer produtos ou serviços que não tenham nenhum impacto ambiental indevido e sejam seguros no uso a que se destinam, que sejam eficientes no consumo de energia e recursos materiais, e que possam ser reciclados, reutilizados ou removidos com segurança.

7. Orientação ao cliente
Aconselhar e, quando apropriado, educar os clientes, os distribuidores e o público em geral quanto à segurança no uso, transporte, armazenagem e remoção dos produtos oferecidos, aplicando as mesmas considerações à prestação de serviços.

8. Instalações e operações
Desenvolver, projetar e operar instalações e conduzir atividades levando em conta o uso eficiente da energia e matérias-primas, o uso sustentável dos recursos reutilizáveis, a minimização de impactos ambientais adversos e da geração de lixo, e a remoção segura e responsável de resíduos.


9. Pesquisa
Realizar ou apoiar pesquisas sobre os impactos ambientais de novas matérias-primas, produtos, processos, emissões e lixos associados com o empreendimento, bem como sobre os meios de minimizar quaisquer impactos adversos.

10. Abordagem cautelosaModificar o processo de produção, a comercialização ou o uso de produtos ou serviços, ou a condução, de atividades, de acordo com o conhecimento técnico e científico, para evitar séria ou irreversível degradação ambiental.

11. Fornecedores e empreiteiros
Promover a adoção destes princípios pelos empreiteiros que agem em nome da empresa, encorajando e, quando apropriado, exigindo um aprimoramento de suas práticas para torná-las coerentes com as da empresa; e encorajar a ampla adoção destes princípios pelos fornecedores.

12. Alerta para emergênciasDesenvolver e manter, quando existirem perigos significativos, planos de alerta para emergências em conjunto com os serviços emergências, as autoridades pertinentes e a comunidade local, reconhecendo potenciais impactos fora da empresa.

13. Transferência de tecnologiaContribuir com a transferência de tecnologia e métodos gerenciais ambientalmente corretos para todos os setores industriais e públicos.

14. Contribuir para o esforço comumContribuir para o desenvolvimento das políticas públicas e para os programas e iniciativas educacionais empresariais, governamentais e intergovernamentais que venham a ampliar a consciência ambiental e a proteção do meio ambiente.

15. Abertura às preocupações sociais
Promover a abertura e o diálogo com os empregados e com o público, antevendo e respondendo às suas preocupações quanto aos perigos e impactos potenciais das operações, produtos, resíduos ou serviços da empresa, incluindo aqueles que se fazem sentir fora da empresa ou em nível global.

16. Cumprir as exigências e emitir relatórios
Medir o desempenho ambiental; realizar auditorias e avaliações ambientais periódicas sobre o aumento das exigências da empresa, das normas legais e destes princípios; e oferecer e periodicamente as informações adequadas ao Conselho diretor, aos acionistas, aos empregados, às autoridades e ao público.

Com base nesses princípios, o British Standards Institute (BSI) lançou, em 1992, a norma BS 7750, que normatiza a instalação de um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) e a sua certificação.
Seguindo o mesmo rumo, a International Organization for Standardization (ISO), após a grande aceitação da série ISO 9000 (Sistema de Gestão da Qualidade) envidou esforços para avaliar a necessidade de normas internacionais para gestão ambiental. Em agosto de 1991, criou o Strategic Advisory Group on Environment (SAGE), que tinha o objetivo de propor ações necessárias para a criação de um enfoque sistêmico da normalização ambiental e da certificação. (ABNT, 1995; CNI, 1995).
Essa história vou contar outro dia.

sábado, 30 de agosto de 2008

Ecodesenvolvimento e Desenvolvimento sustentável

Como já comentei, a partir da metade dos anos de 1980, começa a ser discutida, de forma mais sistemática, a idéia de sustentabilidade. Nesse contexto, o relatório "Nosso Futuro Comum" também conhecido como Relatório Brundtland é um marco histórico, pois, nele é disseminado o conceito de que desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que atende às necessidades da geração presente sem comprometer o atendimento das necessidades das gerações futuras.
Esse documento já foi por mim comentado.
Existem alguns desdobramentos que quero salientar. A adesão dos países e ao conceito é devido ao entendimento de que é possível conciliar o crescimento econômico com a equidade social e a sustentabilidade ambiental.
Essa possibilidade colocou, portanto, a necessidade de se criar um paradigma que o conceito deixava em aberto.
Nesse sentido, a obra de Sachs (1983, 1987, 1993 e 1996) atende alguns anseios que surgem na academia (deixo claro, então, que não a entendo como única alternativa existente).
Vou falar um pouco dele e depois de suas idéias:
Ignacy Sachs nasceu em Varsóvia- Polônia, em 1927. Fugiu com seus pais, em 1939, e permaneceu no Brasil, de 1941 a 1954, período em que se graduou em Economia pela Faculdade de Ciências Econômicas e Políticas do Rio de Janeiro, que, hoje, é a Universidade Cândido Mendes. Daí o seu carinho pelo Brasil e o nosso orgulho de ter contribuido em sua formação inicial.
Sachs é considerado como a segunda geração dos economistas da Teoria do Desenvolvimento. A primeira foi a de Rosenstein-Rodan, Hans Singer, Gunar Myrdal e Raul Prebisch; a segunda, de Celso Furtado, Albert Hirschman e ele.
Defende que existe a necessidade de crescimento com sustentabilidade social e ambiental. Ele afirma categórico que "NEM PENSAR em paralisar o crescimento enquanto houver pobres e desigualdades sociais gritantes; mas é necessário que esse crescimento mude quanto às suas formas de ser e principalmente quanto à repartição dos seus frutos. Precisamos de um outro crescimento para um outro desenvolvimento.”
Ficou conhecido, na década de 1970, por seus estudos sobre inclusão social e desenvolvimento. Na Conferência de Estocolmo, em 1972, Sachs junto com Maurice Strong e Marc Nerfin definiram a declaração final da Conferência.
Segundo Sachs, o Ecodesenvolvimento deve privilegiar quatro postulados:
a) satisfação das necessidades básicas das populações, atendendo conforme a escala hierárquica de necessidades — materiais e psicossociais;
b) self-reliance, promoção da autonomia de comunidades locais organizadas para que elas tenham gerência efetiva do seu desenvolvimento local, sem que isso leve ao isolacionismo;
c) relação simbiótica entre homem e natureza;
d) reconsideração dos conceitos de eficiência e eficácia econômicas, ponderando o utilitarismo que se baseia no cálculo de ganhos individuais de curto e de médio prazos, a partir das dimensões socioambientais societárias (Vieira, 2003; Sampaio, 2004a).
Ele ainda é professor honorário na Escola de Altos Estudos em Ciência Sociais de Paris e na Universidade de São Paulo. Sua publicação, no Brasil, mais recente, é Rumo à Ecossocioeconomia - teoria e prática do desenvolvimento, de 2007 e seu livro recente é La troisième rive — à la recherche de l’ècodéveloppement (Paris, 2008).
Em 2003, ele dá uma palestra interessante (adiciono o link da mesma para quem quiser saber mais), que resumo abaixo.
Afirma ele que o país precisa de um crescimento com alta intensidade de empregos, pois, a relação emprego-crescimento é variável chave da estratégia do desenvolvimento includente e permite nivelar das disparidades de renda e riqueza.
A inclusão, via geração de trabalho, contribui tanto para o aumento da renda e do bem-estar quanto oferece uma solução permanente, ou seja, independente de políticas cíclicas compensatórias.
Considera importante sair do achismo e conhecer cientificamente os encadeamentos entre o núcleo modernizador e o resto da economia, de maneira a obter a melhor relação entre empregos diretos e indiretos possivel. Diz Sachs (2003, p.6): "Queremos é maximizar o emprego decente combinando atividades de diferentes níveis de produtividade, em vez de buscar a maior produtividade possível do trabalho às custas do emprego".
Além disso, é preciso passar da civilização do petróleo à civilização da biomassa, valorizando de maneira ecologicamente correta os recursos renováveis, construindo um diversificado complexo bioindustrial e transformando, assim, em vantagem permanente a condição de país tropical.
A geração de empregos a partir da valorização das biomassas terrestres, florestais e aquáticas - e sua transformação em alimentos, bioenergia, fertilizantes, fibras, plásticos, materiais de construção, fármacos e cosméticos, mediante a aplicação de biotecnologias nas duas pontas do processo - para aumentar os rendimentos da produção primária e para expandir o leque dos produtos derivados da biomassa, bem como as tarefas que daí resultam para o sistema de fomento, o dispositivo de pesquisa e instituições de apoio ao pequeno e micro empresário.
Sachs considera como sua profissão de fé a defesa de que, apesar da vulnerabilidade externa da economia brasileira, deveria ser possível acelerar a reforma agrária e transformar gradualmente os assentamentos em vilas agroindustriais, expandir o complexo bioindustrial, partir para um grande mutirão habitacional e ampliar a frente de obras infra-estruturais promovidas por métodos intensivos de mão-de-obra.
Para ele, o processo de substituição do petróleo por biomassa é central na luta contra as mudanças climáticas além de contribuir diretamente para a solução da escassez de empregos, pois, é necessário reabrir a discussão sobre um novo ciclo de desenvolvimento rural de maneira a criar oportunidades de trabalho decente para bilhões de pobres das áreas rurais.
Ele ainda comenta, em entrevistas que dá que:
A humanidade passa por uma grande transição, que coincide com o esgotamento dos mais importantes modelos de desenvolvimento, que dominaram o cenário desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O comunismo se desmoronou com a queda do Muro de Berlim. O reformado capitalismo do pós-guerra deu lugar ao neoliberalismo. Existem controvérsias se ocorre, com a recente crise financeira, o início do fim do neoliberalismo. Com isso, ocorre a emergência de biocivilizações, as quais, quando surgirem, mudará a geopolítica mundial, pois favorecerá os países tropicais, qualificados por Pierre Gourou como “Terras da boa esperança”. Nesse sentido, esses países precisam conseguir ampliar a vantagem do clima natural por meio da pesquisa, uma apropriada organização de sua produção e um efetivo desenvolvimento da cooperação Sul-Sul.
Espero que eu tenha conseguido passar uma breve noção de quem é o Professor pesquisador Ignacy Sachs.